27.3 C
Fortaleza
terça-feira - 07 julho 2026
Início CULTURA Alunos acham imagem sacra escondida sob reboco em patrimônio histórico de Fortaleza

Alunos acham imagem sacra escondida sob reboco em patrimônio histórico de Fortaleza

Imagem foi descoberta no prédio tombado do antigo Colégio Marista Cearense. ‘Isso mostra que a cidade vem priorizando a estética e enterrando a história’, diz professora.

 Estudantes do curso de arquitetura e urbanismo de uma faculdade no Centro de Fortaleza se depararam com uma imagem artística, encoberta por camadas de tinta e revestimento de reboco, resultado de reforma realizada no prédio centenário tombado, onde funcionou por 90 anos o Colégio Marista Cearense. O achado ocorreu durante um minicurso de restauração patrimonial na escola tombada como patrimônio cearense.

A descoberta revelou o que seria a imagem, em baixo relevo, de Padre Anchieta, ambientada em uma paisagem litorânea. Quem afirma é Walden Luiz, professor e coordenador do Departamento de Artes da Estácio na década de 1980, época em que a arte foi feita.

A memória de Walden é, até agora, o único arquivo da idealização da imagem. De acordo com ele, a arte se trata de um painel com extensão por toda a parede, em que o padre segura um cajado e escreve poemas à Virgem Maria, na areia. “É um painel muito bonito. De início pintaram de dourado, mas ficou muito chamativo e depois fizeram um envelhecimento. Fiquei surpreso de terem tratado o painel com argamassa, foi feito numa talha de cimento, era bem interessante”, relembra o professor aposentado.

Ele diz que a arte ainda está clara na memória porque o painel ficava na entrada do colégio, por onde passava diariamente.

‘Enterrando a história’

Para Carolina Alves, professora do curso de restauração em que a arte foi revelada – juntamente com o professor do curso de arquitetura, Frederico Barros – o achado reflete a falta de educação patrimonial na cidade, já que a peça é parte histórica do prédio.

“O minicurso, de dois dias, era pra apresentar processos que norteiam a restauração em edificações como essa, com valor de prédio tombado. A proposta das aulas era intervir numa área que sabiam que tinha passado por uma reforma sem critérios. Quem cobriu a arte com reboco pode ter feito porque a arte já não estava íntegra. Mas isso mostra que a cidade vem priorizando a estética e enterrando a história.”

Segundo Carolina, a faculdade de arquitetura foi um dos primeiros cursos a ocupar o prédio do antigo colégio, que tem valor histórico e arquitetônico, tombado pelo município e pelo estado. “Além de ter ocupado o local, uma das propostas era educar no sentido patrimonial, tanto para os alunos, quanto na promoção de eventos e visitações pra sociedade”. Com essa ideia, organizou-se a Semana de Arquitetura, que trouxe o minicurso de restauração como experiência além das disciplinas da grade curricular.

“Esse local onde começamos a trabalhar já estava desprendendo da parede. Achamos que íamos encontrar uma sequência de cores que mostrariam as pinturas que já tinham ocorrido lá ao longo dos anos. Iniciamos a prospecção com bisturi, e encontramos esse baixo relevo artístico”, conta a professora. Ela diz que a turma buscou documentos e fotos antigas do prédio para identificar a arte, mas nada foi encontrado.

A atividade, a princípio, com propósito mais particular de demonstrar a restauração, passou a ser a de revelar um material histórico esquecido do prédio. “Esse trabalho pode suprir uma lacuna documental”, destaca Carolina.

Pesquisa

Coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da faculdade Estácio Fic, Clélia Monasterio reforça que ter encontrado a obra “foi uma bênção” para dar oportunidade aos estudantes de trabalhar a investigação e preservação do patrimônio. “É muito importante porque desenvolve esse sentimento e vontade de trabalhar com a cultura, o patrimônio e a arte. Encontramos um tesouro perdido, agora vamos continuar a busca”, declara.

A ideia é transformar o trabalho em um grupo de pesquisa e extensão, capacitar estudantes para seguirem com a investigação da obra e, posteriormente, de outros pontos do prédio. Por ser patrimônio tombado, é necessário antes regularizar a situação no município e estado.

Segundo a coordenadora, o local de investigação do painel tem aproximadamente 9m². “Para acontecer, tem que ter cooperação entre a instituição e a Estácio. É um trabalho de conversação, se trata de uma obra de arte, precisa de pessoas especializadas.”

Autor: Da redação com G1 CE/Foto: Reprodução/Arquivo pessoal