26.8 C
Fortaleza
quinta-feira - 09 julho 2026
Início DESTAQUE Resistência de escolas deixa “no limbo” crianças com deficiência

Resistência de escolas deixa “no limbo” crianças com deficiência

Sindicato luta na Justiça contra Estatuto que obriga centros particulares a aceitarem matrícula

Há oito meses, pouco depois que recebeu o diagnóstico de autismo de seu filho mais novo, a vida da coordenadora de processos C.A.L, de 31 anos, resume-se a reuniões na escola e a uma verdadeira luta para conseguir a inclusão do seu filho. Também mãe de outro menino na mesma escola tradicional da zona leste de São Paulo, C.A.L não quer se contentar apenas com a “convivência” de seu filho com outras crianças. Quer fazer valer a mensalidade de R$ 900 também na esfera pedagógica.

— A escola mostrou-se completamente desestruturada e desinteressada para atender às necessidades básicas do meu filho. Fizemos reuniões e só percebi uma preocupação sobre como não assustar outros alunos quando ele chorasse ou fizesse birra. Sinto como se a escola estivesse prestando um favor ao tentar entender nossa situação.

A luta da coordenadora de processos é a mesma de inúmeros pais de crianças com necessidades especiais. Poucas escolas regulares se mostram dispostas a acolher esses alunos e trabalhar os benefícios da diversidade.

O que pode ajudar a amenizar esse cenário é o Estatuto do Deficiente, sancionado em julho deste ano. Entre os artigos está a obrigatoriedade de escolas públicas e particulares aceitarem alunos com qualquer tipo de deficiência, além de não cobrarem nada a mais por isso.

O assunto incomodou a Confenen (Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino), que representa as escolas particulares de todos os graus. A entidade entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF (Supremo Tribunal Federal) contra a medida, questionando a obrigatoriedade de matricular alunos com deficiência.

No texto, a confederação argumenta que a responsabilidade desse tipo de educação é da gestão pública e que a lei poderia onerar as escolas e frustrar professores sem capacitação.

Um dos trechos diz: “[…] jogam ônus dos sobrecustos para a escola particular e para todos seus demais alunos, alterando injustamente o orçamento familiar, com verdadeira expropriação; frustram e desequilibram emocionalmente professores e pessoal da escola comum, regular, por não possuírem a capacitação e especialização para lidar com todo e qualquer portador de necessidade e a inumerável variação de cada deficiência; causarão o desemprego e o fechamento de escolas particulares; lançam sobre a iniciativa privada encargos e custos de responsabilidade exclusiva dos poderes públicos […]”

Os argumentos usados pela confederação foram como um “soco no estômago” das famílias que sofrem para conseguir um lugar digno para seus filhos com deficiência estudarem. Até encontrarem a escola certa, muitos pais batem de porta em porta, como se pedissem, na fala delas, um verdadeiro favor aos colégios.

Inclusão

Não importa a deficiência da criança, as histórias e queixas dessas famílias são muito semelhantes. Sempre tem uma escola regular que prefere repassar aos pais, por meio da pressão, a responsabilidade de tirar a criança da escola. São comuns lamentações em forma de “boa intenção” em reuniões, muitas vezes, sem hora para acontecer, como conta C.A.L.

— Fui chamada diversas vezes para reuniões com a psicóloga responsável do local e a coordenação infantil e costumo ouvir como meu filho atrapalha a aula, dispersa outras crianças e influencia na logística da turminha. Já mandaram eu procurar outra escola também. Se eu soubesse que meu filho era autista no ato da matrícula, tenho certeza que a escola não o aceitaria.

Para Neide Noffs, psicopedagoga e diretora da faculdade de Educação da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), os pais têm que tentar reconhecer a intenção da escola quando ela diz que não tem estrutura para atender um aluno com déficit.

— Os pais precisam se atentar se a escola não tem reais condições de atender àquela criança ou não a atende porque a considera ameaçadora e assustadora. Tem casos de deficiência que precisam da presença de outro profissional em sala de aula, chamado de mediador. Não adianta apenas receber o aluno e não ter a estrutura necessária para o desenvolvimento pedagógico, que inclui, às vezes, além de um professor capacitado, material de estudo exclusivo. A criança não pode ser apenas integrada, ela tem que ser incluída.

“Falta vergonha”

Apesar das barreiras a serem vencidas pelas escolas regulares para receber crianças com necessidades especiais, a deputada federal Mara Gabrilli, critica a resistência de algumas instituições.

— Está faltando educação, vergonha e vontade das escolas regulares. Existem escolas e empresas que cumprem com maestria a inclusão. O que elas têm em comum é a boa vontade, a qualificação das pessoas e a reestruturação de suas instalações. É um absurdo que uma família que não tem uma criança com deficiência possa escolher onde quer que o filho estude e que esse direito não se estenda às famílias que têm pessoas com deficiência.

Para a psicopedagoga e diretora da faculdade de Educação da PUC-SP, as escolas regulares resistem à inclusão por causa das consequências estruturais que elas trazem. Neide explica que as escolas particulares não podem ser pensadas apenas como empresas comuns e a missão educativa deve ser equilibrada com a parte financeira.

— Sabemos dos custos extras que a inclusão pode gerar, mas isso não pode ser um impedimento. É a hora de reestruturar toda a escola a partir do olhar da inclusão. Tem que promover a capacitação dos profissionais, mudar a lógica de organização e se atualizar em relação ao novo modelo de educação do País.

Apesar de saber a responsabilidade das escolas, a psicopedagoga destaca que os governos municipais, estaduais e federal têm que desempenhar um papel mais atuante na ampliação da educação inclusiva.

— Teria que rever os impostos, reconhecer essas instituições, criar subsídios, visando estimular as escolas.

Autor: Caroline Apple, do R7/Foto: Divulgação.