Para Capriles, modelo econômico do Brasil pode ser aplicado na Venezuela.

382

Depois de uma frenética campanha eleitoral pela presidência da Venezuela, o candidato da opisição, Henrique Capriles Radonski, diz que confia na sua capacidade de enfrentar nas urnas, neste domingo (14), o herdeiro político do ex-presidente Hugo Chávez, Nicolás Maduro. O advogado percorreu o país explicando a sua proposta eleitoral: um programa com alto componente social que tentará reativar a produção nacional e os laços de comunicação com o setor empresarial do país.

Embora tenha abandonado há anos o terno e a gravata por roupas esportivas, e tenha adotado o hábito de caminhar pelas ruas sem escoltas, Capriles é altamente rejeitado pelos seguidores do processo revolucionário, que não lhe perdoam por ter nascido em uma família da elite de Caracas. Na entrevista, respondida por e-mail, o candidato prometeu manter os programas sociais de Chávez e afirmou que quer copiar o modelo brasileiro de “unificar a economia do livre mercado com uma agenda social”. Capriles, porém, não respodeu às perguntas a respeito da influência do ex-presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, na campanha eleitoral venezuela, e sobre a existência de marqueteiros do Brasil na equipe de campanha da oposição.

Leia a seguir a entrevista concedida pelo candidato:

Em várias ocasiões o senhor estabelece o modelo econômico brasileiro como a sua inspiração para sua proposta de governo na Venezuela. Quais são os elementos que o senhor considera aplicáveis no país?
Nós temos falado do modelo brasileiro como um exemplo porque ele conseguiu unificar a economia do livre mercado com uma agenda social, tirando 30 milhões da pobreza e gerando 13 milhões de novos empregos. Isso é o que nós precisamos na Venezuela, que a empresa privada e a pública trabalhem juntas para gerar emprego (…) No estado Miranda pusemos em prática o programa social Fome Zero, ideia que tomamos justamente do Brasil, e em quatro anos ajudamos mais de 75 mil pessoas em situação de pobreza extrema. A província é o exemplo do trabalho social que temos feito durante estes anos, e que queremos espalhar para todo o país.

Quais são as prioridades do país?
Agora estamos precisando aumentar a produção de alimentos para reduzir as importações e para que os venezuelanos tenham fácil acesso aos produtos básicos. Nosso objetivo é alcançar três metas: que o cidadão ganhe bem, coma bem e durma tranquilo. Que os venezuelanos possam ir aos mercados tranquilos e possam comprar tudo o que precisam. Mas, para isso, falta reativar a produção nacional, e para isso é crucial que os setores público e privado trabalhem juntos.

Se o senhor for eleito presidente, a Venezuela vai revisar a sua participação no Mercosul? Qual é a sua proposta para a política exterior da região?
A nossa proposta de política exterior está focada em fortalecer os espaços para a integração, todas as instâncias onde possamos consolidar as relações cordiais com os países da região. Embora permaneceremos na Alba [Alternativa Bolivariana para las Américas, criada em 2006 pelo ex-presidente Hugo Chávez], também adiantaremos uma política de inserção para voltar à Comunidade Andina de Nações, e daí trabalharemos para fortalecer a integração sul-americana, aproximando-os do Mercosul.

Como o senhor acha que poderia reduzir a polarização venezuelana?
O governo tem feito da polarização uma ferramenta política para se perpetuar no poder. Hoje vivemos em um país dividido em grupos de quem gosta do presidente Chávez e aqueles que não. A Venezuela caraterizava-se por acolher todo mundo, na rua uns ajudavam os outros, mas agora isso tem mudado. Neste momento, as ruas venezuelanas estão dominadas pela delinquência e pela intolerância. A cada dia uma média de 50 venezuelanos morrem nas mãos de pessoas violentas e ninguém faz justiça.

O país precisa de um governo que garanta a vida a todos os cidadãos (…) A partir de 15 de abril poderemos construir um governo de verdadeira unidade nacional. Os seguidores do presidente Chávez podem estar tranquilos porque eu sim sei governar para todos por igual, essa é a minha vocação.

Quais são as diferenças do seu programa e o programa de governo de Nicolás Maduro?
Nicolás não tem apresentado proposta alguma. Este governo não quer resolver os problemas dos venezuelanos. O único interesse de Nicolás e seu grupo é ficar nesta cadeira prestada, e para isso é que eles usam tanto a figura do presidente Chávez. Em apenas 100 dias de governo depreciaram a moeda, fazendo os venezuelanos ficarem mais pobres, nosso dinheiro alcança 47% menos, temos uma inflação muito alta e uma escassez que em janeiro deste ano alcançou 20,4%, oito vezes mais do registrado em janeiro de 1999.
A nossa proposta é incrementar a produção nacional e com muitos empregos de qualidade onde todos tenham acesso à educação, além de saúde de qualidade, onde ninguém sinta medo de caminhar de noite pelas ruas, onde seja possível poupar, e onde os cidadãos tenham uma vida tranquila.

E a intolerância?
Estar tranquilo exige que quem está no governo respeite as diferentes formas de pensar, onde o que una ao povo não seja o ódio, mas o desejo de alcançar a liberdade.

 

A insegurança é a principal reclamação do país…
O presidente da República tem que atender o problema da insegurança com toda a força do Estado para acabar com a violência. Cada dia as mães venezuelanas vivem com medo esperando que os seus filhos voltem para casa com vida. Nós temos que mudar essa realidade, e sabemos que, para desmontar a violência, é preciso garantir o acesso à educação e ter muitos empregos com qualidade.

Do g1/foto divulgação