Rei dos tuítes, Carlos Bolsonaro mal fala na Câmara.

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Vereador Carlos Bolsonaro, autor da postagem em redes sociais que culminou na derrubada do então ministro Bebianno, fez apenas três discursos em cinco anos no Legislativo municipal. Em 18 anos de mandato, conseguiu aprovar 16 projetos de lei

Nos últimos quatro dias, com um fim de semana no meio do caminho, o vereador Carlos Bolsonaro tuitou 11 vezes. Falou sobre o irmão Eduardo, criticou a esquerda, postou foto de quando era criança. Recentemente, disparou uma postagem, no Twitter, que derrubou o ministro Gustavo Bebianno. Metralhadora giratória nas redes sociais, o filho do presidente Jair Bolsonaro, no entanto, prefere não gastar munição quando a oratória é ao vivo: foi um dos parlamentares que menos vezes subiram à tribuna da Câmara Municipal do Rio nos últimos cinco anos. De 2014 até hoje, inscreveu-se para discursar apenas três vezes, uma média de um a cada um ano e sete meses.

A última vez em que usou o microfone, lá em dezembro de 2015, rebateu uma crítica de Renato Cinco (PSOL) a um de seus projetos, o Programa Escola sem Partido.

Em 2014, discursou duas vezes. Numa, defendeu o pai de uma crítica feita por Cesar Maia (DEM); noutra, mirou no PSOL. A última fala de Carlos, que por ser breve sequer foi registrada como discurso, aconteceu em setembro de 2017. Na ocasião, ele rebateu um ataque de Leonel Brizola Neto (PSOL) a um de seus projetos, o Pichação Zero, que previa multas para quem fosse flagrado escrevendo em paredes da cidade.

Dois anos sem projetos

Eleito pela primeira vez em 2000, aos 17 anos — derrotando a própria mãe, Rogéria, que tentava se reeleger para a Câmara Municipal —, Carlos se mostrou um vereador econômico também na atuação legislativa: não apresentou qualquer projeto de lei, em que fosse o único autor, em 2018. Nem em 2017. Correligionários associam a baixa produtividade, primeiramente, ao empenho dele na campanha do pai e, agora, ao seu envolvimento com assuntos do Planalto Central. Coube a Carlos o enfrentamento pelas redes que culminou com a queda de Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência. Teve, assim, papel de protagonista da primeira grande crise do governo Bolsonaro. É que, na tribuna das redes sociais, Carlos Bolsonaro é, aos 36 anos, o que se chama de digital influencer , com 1,6 milhão de seguidores somente no Instagram.

A gente sabe que o Carlos está aqui, mas com a cabeça no governo do pai. Quando, no meio de uma sessão, ele some do plenário, pensamos: “Vai escrever alguma coisa na internet que vai chacoalhar Brasília e já volta” — disse um vereador, que preferiu não se identificar.

Em 18 anos de mandato, Carlos conseguiu aprovar 16 leis, duas delas autorizativas (que podem ou não ser adotadas pelo Executivo). Na lista, estão os mais diversificados assuntos: proibição de propaganda em árvores e postes; cancelamento de licença para estabelecimentos flagrados com bens públicos roubados; determinação de que sinais de trânsito com pardais eletrônicos fiquem piscando em amarelo, das 22h às 6h, em alguns pontos, para garantir a segurança dos motoristas; e orientação a gestantes da rede pública para cadastro de recolhimento de cordão umbilical para possível utilização em transplante de medula óssea. Acabou ganhando holofotes por projetos que não foram adiante: a criação do Dia do Orgulho Heterossexual, que propôs em 2011, e o Programa Escola Sem Partido, em 2014.

Depois do atentado sofrido pelo pai, ele alterou sua rotina de segurança: anda com, no mínimo, dois seguranças e usa colete à prova de balas.

Na eleição do ano passado, não foi candidato a deputado federal por um motivo curioso. Insatisfeito com o PSC, de onde os políticos da família já saíram, não queria ser puxador de votos e ajudar o partido a conquistar mais cadeiras em Brasília. Carlos não pôde repetir o movimento do pai e dos irmãos, que, antes do pleito, trocaram o PSC pelo PSL, pois a “janela” de transferência para vereadores ocorre em outro período.

Autor: Da redação com Paulo Cappelli./Foto: Marcelo Régua / Agência O GLOBO