Mandela, uma luz para Obama

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Como o líder sul-africano inspirou a trajetória política do presidente americano

Barack Obama era um senador americano há apenas algumas semanas quando, no início de 2005, Oprah Winfrey ofereceu levar uma mensagem do democrata a Nelson Mandela, o icônico líder sul-africano. Obama foi um quarto nos fundos dos estúdios da apresentadora para escrever a nota, que ficou tão longa que o porta-voz do democrata, Robert Gibbs, teve que trabalhar no texto por meia hora.

“Você tem que me dar um tempo aqui” disse, com a caneta nas mãos, Obama à Gibbs, que recordou recentemente o fato. “Não posso simplesmente inventar uma nota para Nelson Mandela.”

Obama desejou ter um encontro cara a cara com o líder de 94 anos durante sua viagem de três semanas – iniciada na quarta-feira – à África. No entanto, Mandela está internado desde 8 de junho devido a uma infecção crônica nos pulmões. Na quinta-feira, seu estado de saúde permanecia crítico.

Um encontro entre Obama e Mandela seria cheio de simbolismos e afinidades para pessoas de ambos os continentes: são dois homens de diferentes gerações que fizeram a História como os primeiros presidente negros de suas respectivas nações com divisões raciais acentuadas. Os dois adotaram um frio pragmatismo na tentativa de serem chefes de Estado pós-racismo e inspiraram e desapontaram muitos seguidores.

Mandela tem sido um farol para Obama, que relembrou na quinta-feira como a revolução iniciada pelo sul-africano em um país tão distante inspirou o seu próprio ativismo. Amigos do presidente americano dizem que, para ele e outros contemporâneos, a luta contra o apartheid é equivalente à luta por direitos civis de uma geração anterior nos EUA.

“Minha primeira ação como ativista político foi quando eu estava no Occidental College”, disse Obama, em uma coletiva em Dakar, referindo-se a um breve discurso de quando era mais novo. “Eu me envolvi em um movimento contra o apartheid entre os anos 1979 e 1980, pois eu estava inspirado por o que estava acontecendo na África do Sul.”

Lembrando da longa estadia no cárcere de Nelson Mandela, Obama afirmou que “não imaginava necessariamente que Nelson Mandela iria ser libertado”.

No entanto, os mais próximos conselheiros de Obama afirmam que as pessoas não percebiam o quanto Mandela foi uma inspiração para o democrata em alguns de seus momentos mais difíceis. Valerie Jarrett, uma conselheira e amiga próxima do americano disse que o sul-africano deu a Obama “a força para perserverar”.

Em um prefácio que Obama escreveu para o livro “Conversas que tive comigo” (2010), de Mandela, o americano descreve o impacto que o sul-africano teve em sua vida e em sua entrada para a política.

 

“O sacrifício dele foi tão grande que exortou pessoas em todos os lugares para fazer o que pudessem pelo progresso humano”, escreveu Obama. “Do modo mais modesto, eu fui uma das pessoas que tentou responder a esse chamado”.

Obama acrescentou no prefácio que a mais importante lição que aprendeu com Mandela foi a necessidade de ser teimoso perante obstáculos. Como o sul-africano, que irritou alguns líderes negros que queriam uma distribuição mais radical da riqueza em seu país, o americano também desapontou alguns dos mais fervorosos partidários.

Os dois se encontraram apenas uma vez, em uma reunião espontânea em Washington, em 2005. Mandela estava na capital americana e foi aconselhado a se encontrar com o então recente senador Barack Obama. O americano estava em seu carro indo para uma reunião, quando mudou o trajeto para o hotel Four Seasons, em Georgetown, onde o sul-africano estava hospedado. A conversa gerou uma imagem de Obama, em silhueta, ao lado de Mandela em uma poltrona.

 

David Katz, motorista pessoal de Obama na época, tirou a foto, cuja cópia permanece no escritório da Fundação Nelson Mandela. Outra cópia está na mesa do presidente americano, no Escritório Oval da Casa Branca.

– Ele estava reflexivo e honrado de encontrar um homem como Nelson Mandela – disse Katz, lembrando do encontro de cinco minutos do jovem senador americano. – Ele estava processando a experiência, processando a História.”

Fonte: O Globo/Foto: AP