Mais uma mulher acusa João de Deus de abuso e diz que médium lhe ofereceu mesada

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Em relato exclusivo ao GLOBO, mineira fala sobre agressão sexual que teria sofrido em Abadiânia; é a 13ª denúncia.

Mais uma mulher afirmou ao GLOBO, com exclusividade, ter sido abusada sexualmente por João Teixeira de Faria, o João de Deus. Com isso, já são 13 pessoas que relataram seus casos ao jornal e ao programa “Conversa com Bial”, da TV Globo. Mineira, de 32 anos, ela conta que chegou a considerar se mudar para Abadiânia, em Goiânia, onde fica o hospital espiritual de João de Deus, e que o médium lhe ofereceu uma mesada. Segundo o relato da mulher, o médium tentou colocar a mão dentro das calças dela.

As sete mulheres que relataram seus casos ao jornal estão analisando individualmente se irão apresentar denúncias ao Ministério Público ou se vão aguardar a própria Promotoria tomar o primeiro passo. A autarquia tem essa prerrogativa, a partir das denúncias noticiadas neste sábado. Pelo menos três das sete mulheres ouvidas pelo jornal  estão se aconselhando com advogados para determinar como devem proceder.

Leia na íntegra o relato da décima terceira mulher que denuncia ter sofrido abuso sexual por João de Deus:

“Fui muitas vezes a Abadiânia, não consigo nem lembrar quantas. A primeira vez foi em 2013, eu tinha acabado de fazer 27 anos. Desde a primeira vez que fui, a entidade me chamou para conversar na salinha.

Ele teve uma conversa gentil, cavalheiresca. Falou do poder de curar e tudo que poderia fazer. Nos atendimentos abertos ao público, a entidade disse que eu teria que voltar três vezes a Abadiânia, e sempre que fosse deveria procurar por ele na sala.

Cheguei a considerar morar lá. Ele me ofereceu uma mesada para viver ali, disse que poderia ajudar no financiamento de um negócio, se eu quisesse.

Uma vez, fez questão de me chamar para vê-lo negociar a compra de uma fazenda. Senti que queria demonstrar poder e dinheiro, achei aquilo muito estranho.

Quando li a matéria no jornal [neste sábado, contendo as denúncias feitas por seis mulheres], a ficha começou a cair.

Na primeira vez, estávamos na salinha, eu sentada de frente para ele. Tinha uma medalha no meu colar que eu estava trazendo de Praga, fui mostrar a ele. Depois de olhar, ele quis “guardar” a medalha dentro do meu decote. Não gostei. Educadamente, segurei sua mão no meio do movimento, tirei a medalha de seus dedos e, ainda segurando sua mão, coloquei-a sobre o colo dele.

Depois de conversar, ele me pediu para voltar ali depois do fim da sessão, disse que tinha um tratamento a fazer, algo sobre energia. Achei estranho e disse que, depois da sessão, eu iria passear. “Passear? Você está aqui pra se tratar ou para passear?”, ele respondeu. Aí eu disse que iria até a cachoeira, que fazia mais sentido para mim ir naquele lugar, onde todos falam que as entidades estão presentes. Então combinamos que eu voltaria ali no dia seguinte.

Eram 7 horas da manhã, as sessões logo iriam começar no salão. A pedido dele, fui até a salinha. Ele disse que faria um tratamento energético em mim, que precisaria da energia dele. Encaixou o corpo dele por trás do meu, disse que era “para circular a energia”.

Passou as mãos pelas laterais do meu corpo, até chegar à parte da frente, como se estivesse me abraçando. Passando a mão no meu corpo sobre a roupa, disse que eu era muito forte, e de repente ele tentou colocar a mão dentro da minha calcinha. Foi quando eu conseguir dizer “não!”. Assustada, tirei a mão dele, rápido. Dessa última vez tive muito medo, porque eu já tinha entrado ali antes, mas ele nunca tinha feito algo assim.

Ele ficou irritado com a forma como reagi, mas se controlou e se afastou. Disse que iria começar as sessões.

Sei como ele é poderoso, e digo isso no campo material. Energeticamente, espiritualmente não tenho medo nenhum dele. Uma coisa que eu entendi em Abadiânia é que a polícia é do João de Deus, então fazer denúncia lá parece ser impossível.

Depois voltei lá uma vez, para acompanhar uma pessoa, em outubro de 2014.

É muito difícil falar sobre tudo isso, nunca falei pessoalmente com ninguém, além da minha mãe. Depois do que me aconteceu, descobri outros casos. Revoltada com o que tinha me acontecido, pesquisei na internet e encontrei várias coisas.

De certa forma, senti alívio, porque assim vi que eu não estava louca. Tinha outras mulheres que sofreram que nem eu.”

Autor: Da redação com Helena Borges/ Foto: Givaldo Barbosa / Agência O Globo