Lutar contra a injustiça social é tão importante quanto combater o aborto, diz Papa Francisco

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Em novo documento papal, Pontífice aconselha católicos a não darem ‘excessiva importância’ a algumas regras da Igreja e a buscarem ser ‘o santo da porta do lado’

O Papa Francisco afirmou nesta segunda-feira que os católicos não devem dar “excessiva importância” a algumas regras da Igreja enquanto ignoram outras, urgindo aos opositores do aborto a mostrarem paixão semelhante pela vida dos pobres e oprimidos.

O Pontífice fez o apelo em um novo e extenso documento papal de um tipo conhecido como “Exortação Apostólica”. Intitulado “Gaudete et Exsultate” (latim para “regozije-se e seja grato”), o livro de cem páginas indica como as pessoas podem ser “santas” em um mundo moderno cheio de distrações e materialismo. Nele, o Papa urge os fiéis a serem “os santos da porta ao lado” ao fazer o bem e viverem de acordo com os Evangelhos o melhor que puderem, tendo a caridade e a compaixão, e não regras rígidas, como guias para suas vidas.

Segundo Francisco, a santidade não é exclusividade de bispos, padres e freiras ou daqueles “arrebatados” pela fé, também devendo estar presente nas pessoas que vivem vidas comuns com pequenos gestos, paciência e amor. O Pontífice, no entanto, também fez uma sutil crítica aos conservadores que seguem à letra as doutrinas da Igreja e ficam presos aos seus preceitos e recomendações enquanto não demonstram compaixão pelos outros.

“Não é incomum, e contrário aos anseios do Espírito Santo, que a vida na Igreja se transforme numa peça de museu ou posse de alguns poucos selecionados”, diz o texto. “Isso pode ocorrer quando alguns grupos de cristão dão excessiva importância a certas regras, costumes ou formas de agir”.

Desde o início do papado de Francisco, em 2013, católicos conservadores têm criticado o Pontífice, acusando-o de não defender os ensinamentos morais da Igreja como a interdição do aborto, do homossexualismo e do divórcio, tão fortemente quanto seus antecessores. Na nova exortação, o Papa respondeu que os católicos não devem “relativizar” os diferentes aspectos dos ensinamentos sociais da Igreja ao darem prioridade ou atenção a uma única questão ética ou moral enquanto pouco se importam com outros problemas sociais, como a imigração.

“Nossa defesa dos inocentes ainda não nascidos, por exemplo, precisa ser clara, firme e apaixonada, porque o que está em jogo é a dignidade da vida humana, que sempre é sagrada e demanda o amor de cada pessoa, sem importar seu estágio de desenvolvimento”, escreveu. “Igualmente sagradas, porém, são as vidas dos pobres, daqueles já nascidos, os destituídos, os abandonados e os desprivilegiados, os enfermos vulneráveis e os idosos expostos à eutanásia disfarçada, as vítimas do tráfico humano, das novas formas de escravidão, e todas formas de rejeição”, acrescentou.
O Papa também afirmou que os católicos não podem “sustentar um ideal de santidade que ignore a injustiça em um mundo em que alguns se comprazem, gastam com abandono e vivem só para ter os mais novos bens de consumo enquanto outros olham de longe, vivendo suas vidas na pobreza abjeta”.

Neste trecho, Francisco parece estar se referindo a alguns grupos católicos de países ricos, como os EUA, em que os fiéis se opõem fortemente contra o aborto ao mesmo tempo que lutam contra leis que beneficiem imigrantes. Para o Pontífice, católicos que considerem a justiça social uma “questão secundária quando comparada a ‘graves’ questões bioéticas” são como “políticos buscando votos”. Segundo ele, a única atitude apropriada para um cristão é “se colocar nos sapatos daqueles irmãos e irmãs que arriscam suas vidas para dar um futuro para seus filhos”.

“É nocivo e ideológico o erro dos que vivem suspeitando do compromisso social dos demais, considerando-o algo superficial, mundano, secularista, imanentista, comunista, populista”, escreveu. “Ou o relativizam como se existissem outras coisas mais importantes ou como se apenas interessasse uma determinada ética ou uma razão que eles defendem”, completou.

Para o Pontífice, seus conselhos não são mera “invenção de um Papa” ou um “delírio passageiro”. Francisco defendeu ainda que as ideias apresentadas no documento podem ser reconhecidas como o que “nos pede Jesus Cristo” nos momentos em que “ajudamos cada forasteiro”.

Autor: Da redação com O Globo / Com agências internacionais/Foto: TIZIANA FABI / AFP