Guerra Santa na França: Poder de intrigas e traições

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Em um governo teocrático, os motivos nunca são religiosos.

Toda intolerância tem um cunho de poder e subjugar outras pessoas, por isso temos que sempre ter conhecimento a respeito das crenças que acreditamos serem as mais corretas.

O massacre

Em 24 de agosto de 1572, começa em Paris o massacre da noite de São Bartolomeu, cometido contra protestantes reunidos para o casamento de seu líder Henrique de Navarra com Margarida Valois.

As matanças, organizadas pela casa real francesa, duraram vários meses e se espalharam por outras cidades francesas, resultando na morte de entre 30 mil e 100 mil protestantes franceses, chamados huguenotes.

As Guerras religiosas na França constituem uma série de oito conflitos que devastaram o reino da França na segunda metade do século XVI, opondo católicos e protestantes marcando um período de declínio do país.

 

 

guerra santa Massacre_saint_barthelemy

Mortes e perseguições

Mortes e perseguições marcaram as reformas religiosas que abalaram a Europa, durante o século 16. A Reforma Protestante contra a Igreja Católica e a Contra-Reforma – movimento mais ou menos equivalente, mas na direção contrária – dividiram antigos aliados e tiveram repercussões sociais e políticas. Na França, o avanço do calvinismo gerou o mais sangrento desses conflitos: o Massacre de São Bartolomeu.

As fontes históricas diferem quanto ao número exato (há relatos de 3 mil a 70 mil mortes), mas o certo é que, na noite do dia 24 de agosto, milhares de protestantes foram executados por ordem de Catarina de Médici, viúva de Henrique II e mãe de Carlos IX, o jovem rei da França. Catarina temia a influência crescente dos protestantes, chamados pelos católicos de huguenotes (a palavra pode ser uma derivação do vocábulo alemão eidgenossen, isto é, “federados”, ou uma referência à torre do rei Hugo, em Tours, onde líderes reformistas se reuniam). Entre eles estava Gaspar de Coligny, conselheiro do rei Carlos.

Com medo de retaliação

Os católicos tentaram matar Coligny, mas falharam. Com medo de retaliação, Catarina ordenou o massacre. As brigas religiosas retardaram a consolidação do absolutismo na França, deixando-a em desvantagem frente à Espanha e à Inglaterra. A noite de São Bartolomeu é o fato mais significativo na origem da lenda de que agosto é o mês dos maus agouros.

 

Em apenas um dia, cinco mil pessoas foram mortas em Paris. A tragédia começou depois de um líder religioso, conhecido como Coligny, ser alvejado por um atirador. Ele levou dois tiros quando voltava para casa após comparecer a uma repartição pública no dia 22 de agosto. As balas o atingiram num braço e em uma das mãos. Seus seguidores – minoritários na França, mas cada vez mais numerosos, influentes e vistos com suspeição pelos demais parisienses – atribuíram o atentado frustrado ao governo e organizaram manifestações clamando por justiça e jurando vingança. A administração francesa, representante da maioria religiosa do país, temeu uma rebelião e instigou a população “fiel” a reagir. O resultado foi um massacre sangrento jamais visto na cidade.

Barbárie e a civilização

Mais de quatro séculos passados e superados outros tantos embates entre a barbárie e a civilização, as lembranças da Noite de São Bartolomeu ainda propiciam uma perspectiva que ajuda a dimensionar impasses. De novo, um atentado de motivações religiosas, sobre um fundo de tensão política, desigualdade social e preconceitos, faz ressurgir o lado obscurantista da velha Europa. A história mostra que nada é mais eficaz para liquidar direitos e acabar com ressalvas jurídicas tradicionais do que a dupla alegação de que um crime é inusitadamente ameaçador e que seus responsáveis têm excepcional poder de resistência. Os cartazes de “Je suis Charlie” foram carregados às praças tanto pelas mãos de libertários quanto de liberticidas. Eram erguidos pela turma do “Hebdo” que declarava querer vomitar em personalidades presentes às manifestações. Mas também estavam com os fascistas de Jean Marie Le Pen, que ainda aproveitam o medo para fomentar a xenofobia e o ódio. Hoje, se alguém levasse às ruas de Paris um cartaz com “Je suis politique” poderia acabar tomando uns safanões. Se carregasse outro com “Je suis Montaigne”, se arriscaria a fazer companhia a napoleões de sanatório. O mundo mudou em 400 anos, mas a esperança segue a mesma: que, mais uma vez, a França dos amigos de Montaigne nos salve da França que se enrosca nas trevas.

Autor: Da redação com agencias/tela de Édouard Debate Ponsan