Cartografia social dos Ciganos no Ceará: O retrato do preconceito e da resistência

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O trabalho é importante no resgate da identidade e visibilidade das comunidades ciganas no estado do Ceará.

A associação de preservação da cultura Cigana de Caucaia, (ASPRECCC) com apoio da SDA, através da Coordenadoria de Desenvolvimento Social – (CODEA), começou nesta sexta-feira (16/03) e sábado (17/03), o mapeamento do território cigano cearense, conhecer as reais necessidades e identificar as comunidades ciganas no Ceará, através da cartografia social feita pelos próprios ciganos calons, analisando as condições socioeconômicas e culturais de cada comunidade, ouvindo as dificuldades enfrentadas e reivindicações, avaliando as carências, afim de buscar os caminhos para ajudar estas comunidades, bem como entrar para as estáticas.

 

As visitas às comunidades ciganas no estado faz parte das atividades do trabalho de mapeamento que a associação realiza com o intuito de identificar os ciganos e seus territórios além de ser um preparatório para o I Encontro Estadual dos Ciganos Calons do Estado do Ceará.

Nas atividades, os próprios ciganos identificam seus territórios, se é rural ou urbano, os meios de subsistência, o modo de vida, onde tais informações  são buscadas pelos próprios calons, a equipe do CODEA, capacita a ASPRECCC, para realização das identificações.

Dentre as principais necessidades apontadas pelas comunidades estão à questão da moradia, discriminações, preconceitos e a dificuldades de acesso as políticas públicas, muitos não se afirmam como ciganos pelo preconceito, se falar que é cigano é unânime a queixa de não conseguir emprego.

O presidente da ASPRECCC, o cigano calon, Rogério Ribeiro ressaltou a importância dos encontros com os ciganos para fortalecimento das comunidades. “Este processo de identificação busca estabelecer um espaço para a construção participativa das políticas públicas”, explicou. Para ele, os debates, além de incentivar o desenvolvimento sustentável das comunidades ciganas, também promovem o reconhecimento e garantia dos direitos territoriais, sociais, ambientais, econômicos e culturais, com respeito e valorização à identidade e formas de organização.

Para o coordenador da CODEA, Castro Junior, “É um momento onde os ciganos calons fazem a reflexão da realidade onde vivem, e onde um pode ouvir o outro”, comenta.

Presença

A comitiva da ASPRECCC era composta pelo presidente, Rogério Ribeiro, a secretária Renata Célia, Edson Silva, Claudio Tenório e Luiz Carlos.

Comunidades visitadas

 

A ASPRECCC visitou os ciganos calons em Sobral-Ce, na comunidade Jaburana com 60 calons fixados na fazenda Joelma, onde a comitiva foi recebida pelo cigano calon Severino Ramos Cavalcante, mais conhecido por Rominho e sua esposa, Calin Nazaré, fazem parte da comunidade também seus irmãos Paulo Ramos e Itamar Ramos que não estavam presentes no momento da visita, contudo estavam representados pelos seus filhos e netos.

Nesta visita foi possível conhecer a realidade daquelas famílias bem como explanação sobre o papel da CODEA nas ações com povos de comunidades tradicionais, além de descoberta de elementos da identidade cigana daquele lugar bem como seu modo de ser e de viver.

Também foram visitados os ciganos calons da comunidade Sumaré com a identificação de cerca de 300 calons, onde foi possível conhecer o cigano calon mais velho de Sobral, o Sr. Francisco Benoar Cavalcante, com 75 anos de experiência e um memorial de vida e cultura cigana viva que ele teme que tudo isso acabe. Relata que os mais novos não se interessam pela cultura cigana, fato este que o deixa bastante preocupado, tudo isso devido ao enorme estigma e imagem negativa imposto pela sociedade a uma etnia de uma cultura tão rica como a cultura do povo cigano, e revela “eu tenho um sonho de tirar o preconceito dos Jurons” desabafa ele. Também foi possível conhecer o Sr. João Batista Cavalcante, irmão do Sr. Benoar, e José Francisco Cavalcante, o Alcides Cigano, afilhado de Benoar e pessoa escolhida por ele para lhe suceder e preservar as tradições de sua etnia.

No sábado (17/03) a associação visitou a comunidade cigana calon no distrito de Itapebussu em Maranguape, identificando cerca de 50 calons, dentre eles descobrindo talentos como Damião Alves dos Santos e seu irmão Ronaldo Alves dos Santos, ambos músicos, também foi possível visitar as residências da sua irmã Elieusa Alves, onde foi possível conhecer um pouco mais daquele grupo de ciganos, que segundo ela a sua família a reside a mais de 40 anos em Maranguape. Tendo como o calon mais velho o Sr. José Augusto dos Santos, 83 anos, e suas irmãs calins, Cícera dos Santos, 75 anos e Eurides dos Santos, 86 anos.

Segundo o calon Claudio Tenório, a peregrinação deve continuar nos próximos dias. “Percorremos nesse primeiro momento quatro comunidades e voltaremos a outras comunidades em um total de 23, para ouvir as demandas e anseios das demais” disse Claudio.

De acordo com o presidente da ASPRECCC, o cigano calon Rogério Ribeiro “Estamos aqui neste primeiro realizando este trabalho de mapeamento e de cartografia social de cada comunidade cigana, para levar ao conhecimento do governador e a sociedade, que o estado do Ceará tem ciganos. Nosso povo cigano está vivo e precisa de um acompanhamento e das políticas sociais e públicas. Queremos que o governo autorize o nosso MAPP Cigano, bem como as nossas pautas, que serão apresentadas no encontro com o governador Camilo Santana” contou Ribeiro.

Cigano rural

Em Sobral foram identificadas comunidades ciganos que vivem do comércio (venda/troca) de produtos oriundos da agricultura de subsistência (cultivo de milho, feijão, arroz, além da fruticultura), e da criação de animais (ovino, bovino, caprino, suíno), caracterizando assim a agricultura familiar, sendo publico alvo da secretaria de desenvolvimento agrário.

Vale ressaltar que os ciganos resolveram se fixar um pouco mais afastados da cidade para evitar a discriminação e o preconceito muitos deles principalmente os jovens ciganos muitas vezes negando a sua etnia.

Cigano urbano

Os ciganos que se fixaram na zona urbana da cidade de Sobral ali chegaram a mais de 50 anos e com a aquisição de imóveis vivem da renda dos imóveis alugados.

Em Maranguape, os ciganos vivem de comercio e da arte musical.

Tanto os ciganos de zona urbana quanto os que residem na zona rural tem as mesmas queixas quanto ao preconceito, e sofrem com a discriminação.

 

Agenda com o governador  

Após uma reunião dos povos de comunidades tradicionais do Ceará com  chefe de Gabinete de Camilo, Élcio Batista, a fim de escutar as demandas dos povos, ficou o compromisso de audiência com o governador e as comunidades a fim de atender as solicitações de cada povo, os ciganos aguardam com grande expectativa essa agenda, sobretudo para a aprovação do MAPP Cigano.

Discriminação e preconceito são rotina enfrentada por ciganos

O preconceito vem de lendas e mitos sobre os ciganos, como o que associa esses grupos ao roubo de crianças.

Somos pessoas muito mal vistas na cidade. A gente sempre é visto com muita discriminação. O atendimento é zero por parte dos órgãos públicos.

Intolerância

Por isso que eu digo: se quiser sustentar um filho, ter uma estrutura melhor, se quiser arrumar um emprego, ele [o cigano] vai ter que fugir da sua história étnica. Tem que dizer que não é cigano.

Leitura de mão e comércio

Para sobreviver, os ciganos ainda realizam troca e venda. Antigamente, os ciganos trocavam animais, selas, barracas. “Era um porco, um bode, uma galinha”.

“Hoje, quem tem carro [troca] é carro, quem tem moto troca moto, sobrevive de negócio, como começou o mundo”.

Já as mulheres conseguem algum dinheiro lendo mão e jogando cartas.

Não é crime

Não existe nenhum enquadramento penal para leitura de mão e leitura de cartas. Já houve no ordenamento jurídico brasileiro uma contravenção penal que significava exploração da fé pública, mas esse dispositivo legal foi revogado e não há mais lei criminalizando a atividade da credulidade pública.

Autor/Fotos: ASCOM/ASPRECCC